Nota Técnica: Efeitos da Covid-19 na Economia da Cultura no Brasil

Ana Flávia Machado1, Débora Freire1, Rodrigo Cavalcante Michel2, Gabriel Vaz de Melo3, Alice Demattos4

1CEDEPLAR/UFMG
2Doutor em Economia pelo CEDEPLAR/UFMG
3Mestre em Economia pelo CEDEPLAR/UFMG
4Mestranda em Erasmus Mundus Joint Master’s Degree in Global Markets and Local Creativities


(Atualizado em 30/04/2020)
 

Sumário Executivo

  • Na perspectiva da pesquisa em Economia da Cultura, especialmente no Brasil, há que se considerar alguns fatores: a diversidade cultural, em razão da dimensão do país e das várias etnias que o formam; a ainda reduzida, quando comparada a outros países, frequência a espetáculos/atividades pagas, em razão da desigualdade na distribuição de renda e de educação; a prevalência de consumo de cultura domiciliar, pela tradição da produção de telenovelas e outros programas televisivos; a presença do setor público no incentivo ao setor cada vez mais comprometida por políticas públicas restritivas ao fomento à cultura;
  • Trata-se de um setor de alta complexidade e heterogeneidade, parte é tangível e outra é intangível, alguns produtos são e devem ser únicos e outros estão sujeitos à reprodução. São de natureza pública como também podem ser de propriedade privada. A forma de organização da produção ocorre em diversas modalidades, tais como trabalhadores autônomos, em coletivos, grupos, em instituições públicas, empresas privadas.
  • As atividades culturais não são facilmente qualificáveis e, portanto, quantificáveis. Ora utilizaremos uma definição mais estrita de atividades artístico-culturais, considerando apenas aquelas que são consumidas/fruídas fora do domicilio como ida a cinema, teatro, concertos, shows, visitas a museus, galerias e outros espaços culturais – atividades essas que estão sendo drasticamente atingidas pelas medidas de isolamento social. Ora incluiremos todas as atividades do setor, como os segmentos audiovisual, fonográfico e editorial, por exemplo. Por fim, em razão da definição do IBGE no Sistema de Indicadores e Informações em Cultura, incluímos também serviços de telecomunicações.
  • Quanto aos fluxos de produção, observa-se redução da participação do setor no Valor Bruto da Produção entre 2007 e 2017, diminuição contínua das empresas atuando na área, aumento do salário real médio e expressiva presença de trabalhadores nos serviços culturais como trabalhadores autônomos. Segundo os dados da PNAD do último trimestre de 2019, esses autônomos representam 73,2% do total de trabalhadores do setor cultural, caracterizando o aspecto da informalidade presente no setor;
  • No que tange à despesa das famílias, verifica-se que, para o total das famílias, a despesa com cultura (monetária e não monetária) representava 7,6% da despesa total. Na classe de renda familiar de até R$ 1.908,00 mensais, essa participação era de 5,91%, enquanto que, para aquelas famílias com rendimento total acima de R$ 23.850,00 mensais, de 7,8%, em 2017-2018. Serviços de telefonia, TV por assinatura e internet representam 59,86% da despesa monetária e não monetária em cultura para todas as famílias. Na base da pirâmide, 62,93% e, no topo, 45,88%;
  • É de se esperar que nos segmentos do audiovisual, fonográfico e editorial, o impacto do isolamento aumente a demanda por serviços digitais. Contudo, essa variação é de difícil mensuração a partir da disponibilidade de dados no Brasil no atual momento. Para estimar possíveis choques positivos de demanda no setor de consumo cultural doméstico, seria necessário conhecer a variação nos dispêndios realizados pelas famílias nesse contexto, porém, grande parte desses dispêndios ocorrem por intermédio de plataformas streaming e broadcasting ou de expansão no consumo de dados de internet;
  • O instrumental de insumo-produto é uma ferramenta útil para avaliar o impacto da redução das despesas familiares em atividades culturais fora do domicílio em razão do isolamento social, na economia. Os resultados mostram que o setor de atividades artísticas, criativas e de espetáculos tem multiplicador de produção de 1,6, menor que o da média da economia (1,8), mas um pouco maior que aquele observado para o setor de serviços em geral (1,5).
  • Para os salários, o setor de atividades artísticas, criativas e de espetáculos apresenta um multiplicador de 1,4. O multiplicador de salário representa o efeito da elevação de R$ 1 na demanda do setor sobre o pagamento de salários na economia. Assim, cada R$ 1 de aumento na demanda do setor, gera R$ 1,4 de salários na economia. Comparativamente com as demais atividades, inclusive do total das atividades culturais, este efeito é baixo, visto que, na média, os demais setores apresentam multiplicadores mais elevados;
  • O multiplicador de valor adicionado das atividades culturais ofertadas fora do domicílio pode ser lido da mesma forma que o de salários: cada R$ 1 de elevação na demanda do setor gera R$ 1,6 de valor adicionado na economia. Mais baixo que a média da economia (2,2), este efeito é equivalente à média do setor de serviços como um todo (1,6).
  • Cada posto de trabalho gerado no setor gera 1,2 empregos diretos e indiretos na economia; ou, para cada 1 posto de trabalho a menos no setor tem-se 1,2 empregos a menos na economia. O multiplicador de emprego médio para a economia é de 3,1.
  • Os resultados de menor impacto das atividades culturais fora do domicílio na economia, comparativamente aos demais setores, retratam o perfil da atividade. Trata-se de um setor com encadeamentos mais fracos, representando cerca de 0,07% do Valor Bruto Total da Economia. Ainda, vale lembrar que aqui analisamos apenas o setor de prestação de serviços culturais fora do domicílio, não captando outras atividades como a indústria fonográfica, cinematográfica e editorial, por exemplo.
  • Ao medir o efeito da ausência de despesa familiar em atividades culturais fora do domicílio (redução integral do gasto por três meses) encontramos que, dadas as interdependências setoriais, as atividades mais impactadas negativamente seriam Impressão e reprodução de gravações; Outras atividades profissionais, científicas e técnicas; Atividades de televisão, rádio, cinema e gravação/edição de som e imagem; Manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos; Aluguéis não imobiliários e gestão de ativos de propriedade intelectual; Outras atividades administrativas e serviços complementares; Atividades de vigilância, segurança e investigação; Construção; Atividades jurídicas, contábeis, consultorias e sedes de empresas.
    Em termos monetários, o impacto da paralisação da prestação de serviços artísticos e culturais fora do domicílio por três meses seria de queda de R$ 11,1 bilhões no valor da produção da economia brasileira. Esse impacto implica que, para cada R$ 1 a menos no setor, tem-se R$ 1,6 a menos na economia.
  • Pelo seu caráter meritório, em momentos como os vividos durante a pandemia de Covid-19, a pertinência da formulação de políticas públicas que incentivem o setor cultural é gritante, sobretudo diante do fato de que todas as atividades artístico-culturais desenvolvidas fora do domicílio estão paralisadas pelo fechamento dos espaços culturais, e o impacto dessa paralisação se espraia ao longo da cadeia produtiva do setor.

 

Análise de demanda e oferta de leitos hospitalares gerais, UTI e equipamentos de ventilação assistida no Brasil em função da pandemia do COVID-19: impactos microrregionais ponderados pelos diferenciais de estrutura etária, perfil etário de infecção e risco etário de internação

Kenya Noronha1 , Gilvan Guedes1 , Cássio M. Turra1 , Mônica Viegas Andrade1 , Laura Botega1 , Daniel Nogueira1 , Julia Calazans1 , Lucas Carvalho1 , Luciana Servo2, Pedro Amaral1

1 Cedepar-Face-UFMG
2 Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA)

 

Documento atualizado em 23/04/2020

 

 

 

Nota Técnica: Estimate of underreporting of COVID-19 in Brazil by Acute Respiratory Syndrome hospitalization reports

Leonardo Costa Ribeiro1 and Américo Tristão Bernardes2

1Cedeplar-Face-UFMG
2Departamento de Física, UFOP
 
O conteúdo dessa Nota Técnica foi atualizado e expandido para incorporar estimativas para Minas Gera0s:
 
 
 

NOTA TÉCNICA: Previsões a partir do Modelo Epidemiológico SIR Para os Casos de Infecção pelo COVID-19: uma aplicação para os estados brasileiros

Rafael S. M. Ribeiro1

1Grupo de Políticas Públicas e Desenvolvimento, Centro De Desenvolvimento E Planejamento Regional (Cedeplar-Face-UFMG)

(Atualizado em 13/04/2020)

[Versões anteriores]

 

 

Nota Técnica - Desafios e Propostas para Enfrentamento do COVID-19: Território, Escala e Planejamento

Anderson Cavalcante1 e Bernardo Campolina1

1Cedeplar-Face-UFMG

 

(Atualizado em 15/04/2020)


Sumário Executivo

  • Esta nota técnica apresenta algumas considerações sobre os impactos econômicos da pandemia do COVID-19 sobre as regiões brasileiras. As análises partem de considerações sobre diferentes escalas territoriais e ressaltam a importância do planejamento regional e urbano;
  • São apresentados dados sobre a distribuição regional de empresas de diferentes tamanhos, relação entre rendimentos e emprego, distribuição de renda e população, além de localização de equipamentos urbanos para diferentes escalas. O propósito é partir da análise das microrregiões brasileiras, em um plano mais amplo, e posteriormente tecer alguns comentários sobre a situação da Região Metropolitana de Belo Horizonte;
  • A divisão regional do Brasil, um país com mais de 210 milhões de habitantes e significativa desigualdade de renda, impõe inúmeros desafios para tratamento da disseminação do COVID-19: a distribuição desigual de equipamentos de saúde, que são insuficientes em inúmeras regiões; a distribuição das atividades econômicas, cuja necessária redução de ritmo gera impactos espaciais diferenciados; e as condições desiguais impostas pelo distanciamento social, drásticas para populações mais pobres em espaços urbanos, onde as condições sanitárias e de moradia, em geral, são precárias. Sob esse contexto, vale a reflexão desta nota, que pretende ressaltar as condições espaciais e debater propostas para mitigação dessas situações;
  • Como ensejo ao debate, apresentamos simulações simples de possíveis efeitos regionais sobre salários e massa salarial (salário médio x número de empregados) no setor formal privado, a partir da adoção dos critérios estabelecidos pela Medida Provisória 936/2020, que autoriza a redução de jornada de trabalho e salários, procurando evidenciar como os trabalhadores são afetados de forma distinta por uma política nacional que não leva em consideração as diferenças regionais da esperada queda na renda do trabalhador formal.
  • A atual medida que permite a flexibilização de jornada de trabalho e salários pode gerar reduções da massa salarial mensal (média) que giram em torno de R$ 8 bilhões, se considerarmos um cenário simulado onde ocorre um corte horizontal de 25% dos salários; e até R$ 28 bilhões, se considerarmos plena suspensão de contratos. Neste cenário de suspensão plena, há impactos aproximados de R$ 14 bilhões para empregados de grandes empresas, R$ 10 bilhões para empregados de micro e pequenas empresas e R$ 4 bilhões para aqueles que trabalham em empresas de porte médio. O valor total representa 1/5 do total da massa salarial do setor privado formal em 2018;
  • Em termos absolutos, as maiores perdas potenciais se concentram na região Sudeste. As perdas de massa salarial advindas de grandes empresas em todas as grandes regiões são relativamente maiores, quando se comparam os diferentes tamanhos de empresas. Ainda em termos relativos regionais, os empregados formais de micro e pequenas empresas nas microrregiões do Norte, Nordeste, Centro- Oeste e Sul apresentam maiores perdas potenciais de salários. Esses resultados têm relação direta com a distribuição das empresas pelo território e, de certa forma, com as condições de diferenciais regionais de salários, que implicam que trabalhadores em regiões menos desenvolvidas recebam menores salários, comparativamente a seus pares nas mesmas funções, mas localizados em regiões mais desenvolvidas.
  • A segunda parte desta nota técnica analisa a distribuição de renda e população na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Essa mudança de escala analítica é essencial, uma vez que o país é caracterizado por municípios de diferentes portes e diversas aglomerações urbanas, cada um com seus próprios desafios. O olhar mais atento às questões da RMBH e, em foco, do município de Belo Horizonte, evidencia como espaços de vulnerabilidade, com concentração de pessoas de baixa renda, onde as desigualdades se sobressaem, tornam o desafio do combate à pandemia e a crise econômica resultante dela mais complexos. As dificuldades impostas pela pandemia se materializam nas escalas metropolitana e, especialmente, na municipal, com inúmeras particularidades, o que nos obriga a avaliar caso a caso esses territórios.
  • A RMBH é formada por 34 municípios que, à revelia da capital mineira e de Betim e Contagem, são em sua maioria de baixa renda, o que significa que possuem acesso restrito a bens e serviços, como os de saúde. Belo Horizonte, por sua vez, é um espaço altamente polarizador, contendo um conjunto extenso de bens e serviços que atraem demanda de seus vizinhos. A significativa polarização, algo usual em regiões metropolitanas pelo Brasil, é fator imperativo sobre questões de mobilidade, logística envolvendo bens e serviços, acesso a equipamentos de saúde e alimentos. Um planejamento regional é necessário para tornar eficaz o isolamento social, o contingenciamento de atividades e para que se permita a atuação equilibrada dos recursos humanos imprescindíveis para o combate às mazelas do COVID-19.